Assistimos a um movimento em que a ambição dos grandes players já não é pela conquista de território físico, mas pelo território mental – “a colonização da nossa atenção”, como refere Bo Burnham.
As marcas competem por cliques, os conteúdos por segundos, as reuniões por protagonismo. Quanto mais disruptivo o conteúdo, quanto mais rage bait, maior a retenção e, por consequência, mais atenção e mais rendimento. E assim se instala a lógica do volume: berrar, falar alto, captar a qualquer custo.
Esta dinâmica da agitação já não vive apenas nos ecrãs. A fronteira entre o digital e a vida real tornou-se ténue, quase inexistente, e sente-se no mercado, nas empresas e no ritmo do dia a dia.
O volume aumentou, e a velocidade também. No meio deste ruído constante, parece sobreviver apenas aquilo que fala mais alto, que segue a tendência mais recente, que se impõe com mais pompa e circunstância, quem faz mais barulho e é mais disruptivo.
No entanto, quando transpomos esta lógica para fora dos nossos ecrãs e saímos do terreno do digital, identificamos uma gralha nesta lógica: as ideias mais transformadoras raramente são as mais barulhentas.
Numa empresa e numa equipa, as ideias que realmente mudam a direção das coisas, que alteram cultura de uma organização, melhoram resultados e criam consistência raramente vêm da voz mais dominante da sala. Muitas vezes, nascem de quem está a ouvir atentamente e age discretamente no detalhe; de quem observa padrões e quem está a cruzar dados; de quem percebe que o problema não é exatamente o que parece à superfície e decide tomar um rumo informado, mesmo que esse rumo não seja o mais espetacular no imediato.
A democratização da AI veio catalisar toda a lógica do ruído a uma velocidade inimaginável e sem precedentes. De repente, todos se tornaram especialistas em tudo. Assistimos a um verdadeiro empoderamento coletivo: ferramentas acessíveis, respostas instantâneas, geração automática de conteúdo, decisões aceleradas. Mas a que custo?
Há uma agitação evidente nas nossas vidas e no próprio mercado. Sentimos na pele um frenesim quase permanente. A sensação de instabilidade, de não saber bem para onde apontar. A pressão de lançar para não ficarmos para trás, de inovar pelo simples objetivo de anunciar inovação. “Parar é morrer”, é ficar obsoleto.
E, no meio desta corrida permanente, na qual já nem sabemos qual é a meta, impõe-se uma pergunta desconfortável: onde está o espaço para a ponderação? Para a calma? Para a decisão cirúrgica?
No nosso setor - o digital, e particularmente na construção de websites e estratégias de posicionamento digital - esta tensão nunca foi tão clara. É demasiado fácil cair na armadilha falaciosa do ruído e não olhar à pergunta “Para onde? Para que fim?”.
A verdadeira vantagem competitiva raramente está na velocidade isolada. Correr apenas porque se está a correr assemelha-se mais a uma roda de hamster do que a uma maratona com objetivo claro.
Acredito veemente que estratégia não é o oposto da inovação, mas sim o que impede que a inovação seja mero ruído - mais uma tendência passageira.
Num mercado saturado, incerto e hiperestimulado, talvez sejamos chamados a criar uma espécie de contra corrente: não nos deixarmos arrastar por decisões rápidas e inconscientes, e a questionar antes de agir.
Ser veículo de calma, ponderação e de rumo não é ser lento nem travar a inovação. É ser intencional. É ser a pessoa em silêncio numa sala cheia de ruído, a recolher informação e a agir no momento certo, da forma mais estratégica e sustentável. No meio do caos, ser veículo de inovação exige isso.
Não se trata de apelar à passividade, ao conformismo ou à falta de ambição. Pelo contrário, trata-se de defender que a verdadeira ambição exige discernimento. Que a inovação real pode nascer do sussurro, da última pessoa da sala.
Num mundo que recompensa o ruído, a estratégia é um ato de coragem silenciosa.
Quero acreditar que as melhores decisões - as que constroem marcas sólidas, websites estruturados, experiências digitais relevantes e projetos preparados para a nova era da inteligência artificial - não precisem de gritar. Precisam de fazer mais sentido. E sentido não se impõe, constrói-se.