Se tudo é gerado por IA, o que é que ainda é original?

A reflexão sobre a criatividade e originalidade na era da inteligência artificial generativa, convida-nos a revisitar algumas das principais discussões da teoria da arte no século XX.

Maria Callapez
mai 19 2026 • 5 min leitura
Se tudo é gerado por IA, o que é que ainda é original?

Os conceitos de reprodutibilidade, autenticidade, apropriação, autoria e originalidade tornam-se particularmente relevantes num contexto em que as imagens, textos e ideias, podem ser gerados por sistemas algorítmicos. A inteligência artificial parece, nesse sentido, prolongar transformações já iniciadas pela reprodução técnica, bem como pelos processos de digitalização e democratização da cultura.
Na verdade, se anteriormente a reprodução técnica alterou a forma como a obra era reproduzida e distribuída através de meios como a fotografia, o cinema, ou a impressão, a geração algorítmica parece agora tornar mais difusa a própria origem da obra.

A discussão em torno da originalidade encontra um enquadramento relevante em A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica, de Walter Benjamin (1935), onde o autor argumenta que a reprodução técnica da obra de arte conduz à perda da sua aura, isto é, da sua autenticidade e unicidade. Para Benjamin, a possibilidade de reproduzir infinitamente uma obra altera a sua relação com o tempo, o espaço e a experiência estética. Ainda que a obra continue a possuir uma origem identificável, a sua distribuição e disseminação massificada reduzem progressivamente a distância entre o original e a cópia.

Roland Barthes, em A Morte do Autor (1967), questiona a centralidade da autoria enquanto origem única e definitiva do significado da obra. Para Barthes, o texto não deve ser interpretado exclusivamente a partir da intenção autoral, mas como um espaço composto por múltiplas referências, leituras e interpretações. Ao desligar o texto da autoridade do autor, a obra deixa de depender de uma origem fixa e passa a constituir-se como um espaço aberto de significados, onde é o leitor quem assume um papel central na construção de sentido. Neste contexto, a relação entre criação, significado e origem torna-se progressivamente mais difusa.

De forma semelhante, Jean Baudrillard, em Simulacros e Simulação (1981), argumenta que, na era dos media e da reprodução contínua de imagens, o real tende progressivamente a confundir-se com a sua própria representação. Para o autor, as imagens deixam progressivamente de remeter para uma realidade original e passam antes a reproduzir-se continuamente umas às outras. É neste quadro que surge o conceito de simulacro: um signo ou representação que já não corresponde a um original identificável, mas que adquire autonomia própria através da sua constante reprodução e circulação. Nesta perspetiva, a inteligência artificial generativa parece intensificar esta lógica, ao produzir conteúdos cuja origem se torna cada vez mais difícil de delimitar, esbatendo pouco a pouco a fronteira entre criação, reprodução e simulação.

Perante esta realidade, a questão da originalidade torna-se particularmente complexa. Os sistemas de inteligência artificial são treinados a partir de grandes volumes de informação, aprendendo padrões, relações e estruturas presentes em imagens, textos e produções culturais previamente existentes. Embora os conteúdos produzidos aparentem novidade, estes resultam inevitavelmente da reorganização de referências e padrões anteriores, tornando progressivamente mais difícil identificar uma origem singular ou absolutamente original. De certo modo, este processo aproxima-se da forma como a memória humana se constrói através da acumulação de experiências, da associação de ideias e da retenção contínua de referências ao longo do tempo. Contudo, enquanto na criação humana é possível reconhecer uma experiência, intenção ou percurso individual, na geração algorítmica a origem da criação torna-se cada vez mais opaca e difícil de delimitar.

A inteligência artificial não representa necessariamente o fim da criatividade e da originalidade, mas transforma profundamente a forma como o valor da criação é atribuído. Historicamente, a distinção entre artista e artesão contribuiu para valorizar progressivamente a autoria, a visão individual e a dimensão conceptual da criação artística, para além da simples execução técnica. Mais tarde, com a arte conceptual, o valor da obra desloca-se ainda mais da materialidade e da técnica, para a ideia e para o significado atribuídos à criação. Num ambiente em que imagens, textos e ideias podem ser gerados de forma quase imediata, a originalidade parece depender cada vez menos da capacidade técnica de produzir, e mais do conceito, da intenção e da conjuntura que enquadram a obra.

Em suma, a inteligência artificial generativa não coloca apenas em causa a autenticidade da obra, ou a centralidade do autor, mas também a própria ideia de originalidade enquanto criação absolutamente inédita. Se toda a produção emerge da reorganização contínua de referências anteriores, talvez a questão já não seja distinguir entre original e cópia, mas antes compreender o que continua a atribuir significado e valor à criação, num contexto em que tudo parece poder ser gerado.

Referências bibliográficas

Barthes, R. (1988). A morte do autor. Edições 70. (Obra original publicada em 1967)
Baudrillard, J. (1991). Simulacros e simulação. Relógio d’Água. (Obra original publicada em 1981)
Benjamin, W. (2012). A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. Assírio & Alvim. (Obra original publicada em 1935)
Chiang, T. (2024, 9 de fevereiro). Why A.I. isn’t going to make art. The New Yorker. https://www.newyorker.com/culture/the-weekend-essay/why-ai-isnt-going-to-make-art
Fisher, M. (2009). Capitalist realism: Is there no alternative? Zero Books.
IBM - International Business Machines Corporation. (s.d.). Memória de agentes de IA. IBM Think. Consultado em 15 de maio de 2026, de https://www.ibm.com/br-pt/think/topics/ai-agent-memory?regionCode=br&languageCode=pt&cm-history=br-pt
Observador. (2020, 14 de novembro). Morte, autópsia e vida depois da morte. Observador. https://observador.pt/opiniao/morte-autopsia-e-vida-depois-da-morte

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