Uma reflexão sobre o valor do gesto humano na era do AI

A ideia para o blog desta semana começou num sítio improvável: uma loja de design de interiores, para os nossos leitores mais curiosos: é aquela que começa e acaba em "a".

Marta Guimarães Ferreira
set 1 2026 • 2 min leitura
Uma reflexão sobre o valor do gesto humano na era do AI

Estava à procura de um presente que, como é habitual dadas as vicissitudes da vida moderna, já ia chegar atrasado. Enquanto deambulava pela loja, sem grande objetivo, não pude deixar de reparar no que todas as peças expostas pareciam partilhar: não eram perfeitas. As arestas eram irregulares, as texturas orgânicas, os acabamentos denunciavam a mão que os trabalhou. Havia uma intenção, mas contida. Percebia-se a presença de quem as fez (ainda que muitas delas fossem depois replicadas em massa).

Desde os mochos coloridos da Marni, às peças de Marie Michielssen, passando pelas obras da pintora belga-peruana Shirley Villavicencio Pizango — que emanam algo de matissiano — até aos grandes clássicos como a coleção Rimini Blu de Aldo Londi, nota-se uma tendência clara: um regresso ao orgânico, ao manual, ao imperfeito, ao que é mais humano.

Foi esta imagem que me acompanhou ao sair da loja: a forma como a imperfeição, longe de ser um defeito, pode ser precisamente aquilo que nos faz parar e olhar com mais atenção. Num contexto saturado de produção digital, esta valorização do gesto humano parece menos uma estética e mais uma posição.

Não pude deixar de fazer a ponte para a forma como a inteligência artificial está a transformar o web design.

Estamos num momento em que é possível gerar quase tudo, numa questão de segundos: layouts, sistemas visuais, texto, variações de interfaces. O processo torna-se cada vez mais rápido e acessível, mas, ao mesmo tempo, tudo se tende a convergir numa única linguagem: cada vez mais uniforme, homogénea, mas também indistinta.

É aqui que a personalização se torna verdadeiramente importante. Não no sentido superficial de “customizar” cores ou fonts, mas enquanto decisão consciente sobre identidade: sobre o que faz sentido para uma determinada empresa, negócio ou setor. O que se mantém, o que se transforma e o que é moldado pela mão humana, e não pelo automatismo.

Talvez, perante a facilidade de gerar tudo, o verdadeiro desafio na era da AI não esteja em criar mais, mas em escolher melhor — com intenção, critério e consciência.

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